Crítica à “Na educação, como na guerra”
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Numa primeira leitura da postagem “Na educação, como na guerra” de Claudio Abramo tive sentimentos conflitantes. Transitei entre o espanto, a concordância e a indignação. Num primeiro momento fiquei chocado com a crueza do raciocínio e com o reconhecimento como fato concreto de muitas assertivas, mas também indignado porque como professor não aceito me enquadrar naquela linha de raciocínio.
Estes sentimentos me levaram a outra leitura, menos superficial, para embasar um posicionamento crítico equilibrado.
A citação a Clemenceau com o adendo do próprio Abramo, em principio, parece um posicionamento preconceituoso. O que há de comum na comparação: a vida e o futuro! Então, genericamente diz respeito a todos por afetar a coletividade, mas sempre que diz respeito a todos não diz respeito a ninguém – o todo é caótico e cada qual por pensar egoistamente produziria tensões irreconciliáveis. Havendo por correspondência a inércia ou o caos. Pelo bem ou pelo mal há a necessidade de especialistas ou daqueles que chamam a responsabilidade para si ou que são remunerados para este fim sob a égide de um poder aceito ou coercitivo. O próprio Abramo comete inadvertidamente a contradição ao reconhecer o problema da democracia direta.
A comparação entre soldados e professores, em particular, sobre a capacidade de compreensão de seus objetivos e finalidade é errônea. A finalidade é plural. O soldado sabe o objetivo principal: vencer o inimigo e cumprir missões. As razões são de conhecimento dos planejadores (generais). Os professores idem aos soldados. Sabem o objetivo principal. Se outras finalidades existem são de competência dos gerentes (diretores e executivos). O questionamento sobre finalidades não deve ser imputada ao corpo executivo, mas ao corpo gestor e a eficiência da comunicação entre ambos.
Sem dúvida é da natureza da sociedade capitalista existir mais necessidades do que recursos disponíveis. Este é o motor do progresso capitalista: necessidades insaciáveis de consumo. Deste modo, a sociedade se organiza tendo o orçamento como símbolo do pacto social e as políticas públicas como materialização deste pacto. Não há mistérios – em democracias ou não – há um pacto de poder, um jogo de poder onde os mais fortes estabelecem os rumos.
Quando Abramo diz que uma das tragédias da educação nacional é a baixa compreensão quanto aos objetivos da educação. É necessário impor algumas questões: por parte de quem? Dos professores ou da sociedade? A questão não é a compreensão mas o comprometimento, que, numa sociedade capitalista e corrupta (como a nossa) é medida pelos ganhos econômicos, políticos ou sociais em jogo. Os professores têm compreensão de seu papel quanto aos objetivos da educação, mas podem não ter o comprometimento necessário. O mesmo vale para todas as outras funções públicas ou privadas em nossa sociedade.
Abramo afirma que a educação opera na capacitação de pessoas para atender as demandas do mercado. É uma premissa ambígua: verdadeira e falsa. Verdadeira porque o produto final é a capacitação e falsa porque inexiste uma política pública de formação profissional na base. No caso brasileiro, a afirmação de Abramo, teria maior validade se o sistema de ensino houvesse se mantido e aperfeiçoado no foco à educação profissional. O que foi abandonado há uma década. E que pode vir a ser resgatado por interesses de mercado (da área educacional).
Discordo quando afirma que não se antevê nenhum futuro para o mercado de recursos humanos. Não é de todo verdade. Vislumbra-se a discussão ou o embate entre os setores públicos e privados da educação quanto á formação de tecnólogos. Filão de interesse das escolas particulares! Ademais setores tradicionais do mercado de educação estão se saturando restando a fronteira da educação profissional.
Quando afirma que desde a redemocratização se desconhece o que seja planejamento no Brasil. Parece sugerir a idéia de economia planejada! Conceito e prática que se demonstraram ineficientes face à concorrência do sistema capitalista. Existe planejamento no país. Pode se discutir os rumos e interesses desse planejamento e não a sua existência. O que não existe no país é pesquisa – inventividade – criatividade. Como o próprio Abramo posteriormente reconhece no texto, inclusive o autor é otimista neste ponto por afirmar o desaparecimento da capacidade de inventar. Creio que existe uma questão fundamental: quando nossa sociedade foi de fato inventiva ou criativa? Houve casos de alguns brasileiros. Mas, enquanto prática social?
O autor praticamente conclui mostrando como o Brasil é:
O mercado de trabalho não tem necessidade de pessoas qualificadas em grande número, e a capacidade de inovação não é uma característica que se valorize nas pessoas, muito ao contrário. O mercado de trabalho demanda indivíduos capazes de cumprir ordens, reproduzir tarefas rotineiras, repetir o que o seu dono mandar.
Certamente concordo que tal estado de coisas não se alterará por exortações à cidadania, mas não concordo que irá se alterar exclusivamente por modificação das perspectivas econômicas. Penso que existe uma contrapartida que o autor não considera na analise. O aluno! A grande maioria é a própria responsável pelo fracasso do ensino e não porque não aprendam, mas porque não desejam. E isto não é uma questão econômica – é de modelo social e que extrapola a capacidade de qualquer professor.

